quarta-feira, 1 de julho de 2009

A não-obrigatoriedade do diploma de Jornalismo


No dia 17 de junho, Ministros do Superior Tribunal Federal derrubaram a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo. A princípio, a notícia me caiu como uma bomba, deixando-me ao mesmo tempo indignada e reflexiva. Li várias opiniões a respeito e até postei o texto de meu colega de sala e futuramente de profissão, Marcelo Maropo.
Ao mesmo tempo, não conseguia formular a minha própria opinião. Hoje, tentarei fazer isso. Ou, talvez, refletir sobre os argumentos prós e contra a obrigatoriedade do diploma.

Bem, os ministros e pessoas que defendem a decisão relataram que a obrigatoriedade impedia a liberdade de expressão, que o Jornalismo é uma profissão “essencialmente intelectual,que exige domínio da linguagem,vastos conhecimentos humanos” e que qualquer pessoa com “pendor para a escrita, para a informação” poderia exercer a profissão. Além disso, a falta do diploma de Jornalismo não colocaria em risco a “coletividade”.

A Associação Nacional de Jornais (ANJ), o Sindicato das empresas de Rádio e Televisão de São Paulo (Sertesp) e empresas de comunicação, como a “toda-poderosa” Rede Globo apoiaram a decisão. Já a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), assim como muitos jornalistas diplomados ou não e conhecidos, manifestaram-se contra. Protestos foram realizados em várias partes do país e opiniões a respeito se multiplicaram na internet.

Dentre outros argumentos, estes atestam que a medida foi pedida pelos donos de rádio e televisão para poderem limitar a contratação de jornalistas diplomados, o que acarretaria no pagamento de salários menores a quem não tiver o diploma, bem como a fácil manipulação destes “profissionais”, de acordo com os interesses da própria empresa. A Fenaj também coloca que em nenhum momento o diploma de jornalismo limita à liberdade de expressão. Na verdade, ela é limitada pelos espaços disponíveis nos meios de comunicação (tempo, laudas, entre outros), pelas ideologias e interesses destes mesmos meios e pela dificuldade de acesso de toda a população a eles.

Bem, este foi apenas um resumo dos vários argumentos expostos a favor e contra a decisão do STF. Eu diria, que seriam os argumentos principais de ambos os lados. Agora vou tentar expressar minha opinião a respeito.

Em primeiro lugar, discordo do Ministro Gilmar Mendes quando ele diz que “os jornalistas se dedicam ao exercício pleno da liberdade de expressão”. Jornalismo é muito mais do que simplesmente expressar uma opinião a respeito de um fato. Isso é fácil, realmente qualquer pessoa pode fazê-lo, desde que consiga seu espaço, o que é muito difícil nos grandes meios de comunicação, uma vez que a decisão sobre o que vai ser falado segue a “linha editorial” do veículo. Importante lembrar que antes de qualquer coisa, os veículos de comunicação são empresas, e como tais, também têm interesses e ideologias. Esta história de imparcialidade, principalmente dos meios, é mito!

Quando um jornalista “cobre” um fato, ele não está apenas expressando sua opinião a respeito, mas tentando recontar como aquele fato aconteceu, da forma mais próxima possível. Digo isso porque não é possível recontar exatamente, a não ser que ele tenha sido testemunha ocular do ocorrido. Do contrário, é preciso ouvir todas as fontes possíveis e montar um grande quebra-cabeça que chegue o mais próximo da realidade. Claro que a tão falada “imparcialidade jornalística” é também um mito, afinal, a bagagem do repórter conta bastante, mas as informações que ele colhe e como repassá-las depende também de seu trabalho de apuração.

Em segundo lugar, acredito que a profissão de Jornalista não seja o exercício pleno da liberdade expressão. Como falei anteriormente, antes de qualquer coisa, os veículos de comunicação são empresas, e como tais, têm seus interesses e objetivos. E todos os profissionais que delas façam parte, devem segui-los. Não vou generalizar, afinal, existem empresas jornalísticas que se preocupam sim com a neutralidade e qualidade das informações divulgadas. Mas também existem aquelas empresas que, sabidamente, manipulam informações com objetivo de manipular também a opinião pública. E, o jornalista que quiser trabalhar em tais empresas, ainda que subjetivamente, sabe que deve se adequar a elas, mesmo que tenha opiniões divergentes.Do contrário, estará na rua.
Sendo assim, esta história de “liberdade de expressão” não é exatamente como todos defendem e acreditam.

Sobre a obrigatoriedade ou não do diploma, fico me perguntando o que mudaria. O diploma é apenas um pedaço de papel. O importante é a formação que vem antes dele. Essa sim deve ser questionada se é importante ou não.

Concordo com o Marcelo que para ser Jornalista é preciso dom. Não basta “apenas” escrever bem, ser curioso e querer expressar sua opinião a respeito das coisas e fatos. Concordo também que a prática da profissão é bem diferente do que vivenciamos na faculdade. Realmente acho que, em um ano e meio, já aprendemos todas as técnicas jornalísticas necessárias para exercê-la. Concordo ainda que os valores éticos e morais,essenciais para a profissão,não são aprendidos na universidade, mas sim lapidados ao longo da vida.

Entretanto, acredito que a universidade é o espaço para que estes valores sejam trabalhados e reforçados. É o espaço para o estudante entrar em contato com profissionais da área, trocar experiências, debater e analisar casos de “pecados” cometidos pela mídia e aprender, para que não cometa os mesmos erros. É o espaço também para ele mostrar os seus trabalhos, a sua própria capacidade, ainda que limitada, pois só a pratica diária poderá aperfeiçoá-la.

Fico agora a relembrar casos que foram amplamente debatidos na minha sala de aula, casos que eu mesma muito refleti a respeito, como o da Escola Base, de 1994, o “show midiático” altamente explorado da morte da menina Isabella, bem como a morte de Elloá, em que, segundo muitos, a mídia teve papel decisivo.

Muitos dos jornalistas que cobriram todos estes casos eram e são diplomados. Freqüentaram universidades e possuem registro profissional. Ainda assim, cometerem erros que atingiram diretamente a vida de muitas pessoas. Voltar atrás nestes erros é impossível, mas, para muitos estudantes de jornalismo como eu, esses casos servem de exemplo de mau-jornalismo, exemplos que nunca devem ser seguidos. Aí me pergunto e gostaria de perguntar também, se fosse possível, ao Ministro Gilmar Mendes: será que o jornalismo não pode trazer realmente riscos à coletividade?Casos mal apurados como da Escola Base ou a superexposição de casos como de Isabella e Elloá não representam mesmo risco à vida das pessoas? Não é o diploma quem vai garantir o bom trabalho profissional, mas debater casos como estes e incentivar o exercício com ética e respeito ajuda e muito!

Em um primeiro momento, fiquei me questionando também como ficaria o mercado de trabalho após esta determinação do STF. Imaginei muitas pessoas sem a formação acadêmica tentando trabalhar numa empresa jornalística. A principio, fiquei assustada com a possibilidade da concorrência. Depois, pensei: o mercado de trabalho para qualquer profissão hoje em dia é bastante concorrido. O que faz uma pessoa, em detrimento de outras, ganhar a vaga tão desejada? Os diferenciais. Não seria então, na nossa área, o diploma um diferencial? Já que ele não é mais obrigatório, qual seria um diferencial na hora da concorrência? Quem tem o diploma, estudou quatro anos e realizou atividades acadêmicas, ou quem não colocou os pés na universidade? Tudo bem que especialistas de outras áreas podem tentar uma vaga também, mas, o que é melhor? Um advogado que não é jornalista ou um jornalista especializado em direito? Não desmerecendo profissão alguma, mas não basta ter amplo conhecimento,como no exemplo dos advogados, que conhecem as leis e seus termos técnicos. É preciso saber passar essas informações ao público de uma maneira que ele compreenda, clara e objetiva. E só saber escrever bem, não é suficiente. O mesmo serve, por exemplo, para os cientistas, que adoram falar difícil, mas muitas vezes são incompreendidos pelo público. De qualquer forma, acredito que especialização constante é uma necessidade para qualquer profissão, inclusive para o Jornalista. Quem não se especializa, fica para trás, não tem diferencial. E até para outros profissionais que querem se tornar “jornalistas”, a especialização se faz necessária.

Em um dos textos que li, não me recordo de quem no momento, o autor dizia que agora só fará faculdade de jornalismo quem quer realmente ser jornalista. Concordo com ele. Na minha própria faculdade, e também no processo seletivo que prestei certa vez, observei muitas garotas, principalmente, que escolhem a profissão pelo glamour, pelo status que vem com ela. Muitos acham que ser jornalista é aparecer na teve e ter visibilidade. Muitos nem sabem bem o que é ser um jornalista de verdade. São pessoas que não estão preocupadas com a qualidade das informações que serão veiculadas; o importante é aparecer.

Isso sempre me deixou muito triste. Pessoas que não sabem valorizar esta profissão tão linda e tão importante. Agora, com o fim da obrigatoriedade do diploma, acredito que essas pessoas que se iludem fácil vão desistir de cursar uma faculdade. Talvez consigam realizar seus desejos de outras formas; talvez tentem aparecer na teve de outras maneiras. Pode ser também que conquistem seus espaços nestes programas que se dizem “jornalísticos”, mas que no fundo, só visam confundir, manipular ou desinformar o público.

Para os amantes da profissão, a universidade será uma forma de adquirir conhecimentos, aprendizado, crescimento pessoal e profissional. Será mais um degrau numa carreira cheia de altos e baixos.

Eu sou a favor da obrigatoriedade do diploma, afinal, assim terei mais chances com o meu nas mãos. Mas estou a refletir até onde essa decisão do STF vai interferir na luta pelos meus sonhos. O diploma para mim não é apenas um pedaço de papel. Não cursei os quatro anos de formação apenas porque era obrigatório. Para mim, seguir esta carreira que escolhi é um sonho de adolescência, que cresceu e floresceu conforme conheci cada vez mais o prazer de ser jornalista. Essa é a profissão que quero seguir. Com diploma ou não, vou fazer o melhor que puder para me estabelecer, construir uma carreira sólida e de sucesso, realizar os meus desejos e ter prazer naquilo que faço. Mesmo que o Supremo não volte atrás, e a não obrigatoriedade continue, mesmo que a concorrência seja grande, mesmo que as dificuldades aumentem, não vou desistir dos meus sonhos e objetivos.

Acho que esta decisão é mais uma prova de que a profissão de Jornalista nunca foi valorizada e respeitada como deveria. Talvez eu esteja parecendo conformada. Na verdade, estou, por um lado, também indignada. Mas, até que ponto, mais uma vez questiono, isso vai influenciar na realização dos meus sonhos? Pelos meus conhecimentos também adquiridos ao longo da universidade, aprendi que o exercício do jornalismo nunca foi fácil. Jornalistas sofrem e sempre sofreram com a censura, repressões, perseguições, torturas, processos. E nem por isso deixaram de ser jornalistas. Esse é mais um golpe que a profissão sofre. Mas nem por isso deixará de existir. E de ser seguida por aqueles que realmente acreditam no seu real valor e importância. Ainda que existam aqueles que o Marcelo chama de “pseudojornalistas”; ainda que existam aqueles que querem manipular os profissionais; e pior, aqueles que querem neutralizar a importância da profissão diante da opinião publica...

Por Ana Paula Fontana
(no próximo post, esclareço o que é ser, na minha opinião, jornalista de verdade.)

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