segunda-feira, 22 de junho de 2009

O DOM GRATUITO DO JORNALISMO


"O fim da exigência do diploma para exercer a profissão de jornalista chegou até a mim depois de um cansativo dia. Pela manhã fui para o trabalho, e não na área. À tarde fui até um evento para captar imagens para a realização do meu trabalho de conclusão de curso. E logo à noite fui até a faculdade para entregar os comprovantes de atividades complementares do curso.
Confesso que foi revoltante ver aquela notícia no Jornal Nacional. O jornal ainda nem tinha acabado quando me vi em um dia nublado, com onze anos de idade, na quinta série do ensino fundamental. Lá estava eu na escola Estadual Professor Benevenuto Torres. Era hora do intervalo. Eu e meus colegas, a Gislaine, o Leandro e a Zenaide estávamos sentados junto à cerca no fundo da escola. Foi quando a Gislaine me perguntou qual faculdade eu iria cursar. Qual profissão eu iria seguir. Não pensei duas vezes. A resposta sempre esteve pronta. Embora minha mãe sempre quisesse que eu fosse um médico eu não hesitei em responder com a boca cheia JOR-NA-LIS-MO. E na verdade eu não consigo nem me lembrar de onde veio esta decisão por jornalismo. Acho que desde muito pequeno. Mas já naquele momento esta era a profissão que eu me formaria. Sempre digo, quando me perguntam, que eu não escolhi a profissão, mas foi ela que me escolheu. Pois nunca tive a oportunidade de pensar qual profissão eu queria fazer. Sempre foi jornalismo e ponto final.
Não demorou muito o Jornal Nacional acabou. Jantei. Depois de algum tempo fui para o banho e cama. Não dormi logo, demorei muito para pegar no sono. Fiquei inquieto. Comecei a meditar sobre a decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal e o descaso com que trataram a minha profissão. Comecei a me questionar. Ora, eu sabia que não era uma estúpida decisão tomada por meia dúzia de homens insensatos que me faria perder a paixão pelo jornalismo.
Recordei-me do primeiro dia de aula com o professor Roni. A aula foi expositiva. O professor Roni começou a falar do curso, da profissão, falou o que é ser jornalista, e contou um pouco das suas experiências profissionais. Naquele momento senti o jornalismo gritar dentro de mim e dizer “ei, estou aqui”.
Percebi que o jornalismo era algo muito além do que uma profissão. E é bem isto. O jornalismo é algo que vai além de um diploma, é algo que vai além de técnicas e muito além da cadeira de uma universidade. Hoje consigo ver que esta profissão é um talento que independe da vontade do individuo. A pessoa, raras pessoas, nasce e é agraciado com este dom.
E o diploma? Ah o diploma é apenas uma forma com que os profissionais da categoria encontraram de ajudar a regularizar a profissão. Foi uma forma de ajudar a segurar um mercado para estes profissionais.
Ora, jornalismo não é somente saber escrever. Escrever um acadêmico em letras tem condições incontestáveis de fazer muito bem, e até mesmo melhor. Jornalismo não é saber falar bem e com boa dicção, isto um fonoaudiólogo faz e ainda ensina ao jornalista. Ser jornalista não é ter boa postura frente às câmeras de TV, neste quesito os atores dão aulas. Ser jornalista não é entender as regas do futebol, afinal cada brasileiro se senti um pouco técnico deste esporte. Ser jornalista não é entender de política e de economia, para cada uma destas áreas existe profissionais altamente capacitados para falar, contextualizar e analisar. Ser jornalista não é saber dominar um microfone quer seja no rádio ou na televisão, os locutores e animadores de programas o fazem muito bem.
O jornalismo é uma inquietude que aguça dentro do ser do jornalista. É uma busca constante. É a tentativa de representar a sociedade. É a tentativa de saciar os anseios de um povo. É a procura pela resposta que falta. É o desejo de mostrar que há uma saída. É a insatisfação com o que parece que está perfeito, mas sabe que no fundo alguma coisa pode ser mudada. Não está em apenas dar uma informação, mas espera-se que aquela informação possa traçar novas diretrizes, possa criar novos rumos, abrir novas visões. E acima de tudo é o compromisso com a verdade. O jornalista é um ser inquieto e insatisfeito. Nada para ele está bom. Sempre acha que pode conseguir uma melhor resposta. A melhor matéria da vida do jornalista sempre é a que ele ainda não fez.
O jornalismo a meu ver é tão antigo quanto à prática da prostituição. Ora, o profeta Moisés exercia uma função de jornalista. Ele consultava a Fonte, Deus, e informava a sociedade, o povo cativo no Egito. E sua missão era conduzir este povo para uma sociedade melhor, a saber, a terra de Canaã.
Há muitos jornalistas formados, experientes, e renomados no mercado. Porém sem o dom, sem o talento nato, estes são os profissionais covardes que ocupam as redações e se tornam escravos das linhas editoriais dos respectivos veículos para os quais trabalham. Tornam-se escravos do dead line, servem ao capitalismo, servem ao interesse dos donos dos jornais. São moldados pelo lead. Mas não são capazes de impor os critérios da profissão, não lançam mão da premissa da transparência e da verdade. São o que chamo de pseudo-jornalista. Profissionais com forma, mas sem conteúdo, sem talento, sem dom. Os pseudo-jornalistas tem surgido e se multiplicado. Os jornalistas com sede da verdade, da liberdade e da utópica vontade de mudar o mundo são sufocados. Quando os jornalistas natos chegam às redações, algum profissional sem amor a profissão já passou por lá antes e deixou uma marca, a marca do “preencha as lacunas e ponto”. E são sufocados. Se o dom falar mais alto dentro de si, coitado, não vai muitas matérias e a demissão é certa. Afinal o mercado é competitivo. Existe um monte de jornalistinhas mecânicos por ai querendo uma vaga para preencher as lacunas.
O que falta é coragem para os jornalistas, os jornalistas de verdade. Falta traçar critérios para assegurar a liberdade para exercer a profissão como ela merece ser exercida. Pois responder as perguntas: O que? Qual? Quando? Por quê? Como? Onde? Isto é fácil. Isto qualquer cozinheiro é capaz de fazer. O que a sociedade quer e merece são profissionais que possam reportar os fatos com a inquietude característica da essência do verdadeiro jornalismo.
Não que não existam profissionais com o jornalismo nato, mas estão por ai, perdidos, assim como sugere Ciro Marcondes Filho em a Saga dos Cães Perdidos. O autor coloca que a atividade dos jornalistas tem se desintegrado por conta de forças extraordinárias e hostis. Marcondes Filho diz que o grupo desintegrou-se de forma misteriosa, foi uma desintegração em praesentia, ou seja, se desintegra permanecendo. Que podemos entender com isto? Não me sobra outra alternativa a não ser bater na tecla dos psudos-jornalistas que sufocam os profissionais que tem o jornalismo como algo excelente dentro de si. Mas são tímidos e covardes, ficam no ostracismo.
Somos uma geração de jornalistas sem heróis. Sem falar na soberba intelectual que faz parte da cultura dos falsos profissionais desta profissão. Só porque sabem dominar bem as técnicas do burocrático lead, e dominam profundamente algum assunto, se sentem as pessoas mais sábias do mundo. Bando de hipócritas. Não conseguem enxergar que um cozinheiro é capaz de debater os mesmo temas que eles debatem.
Caríssimos jornalistas, digo aos verdadeiros, fica aqui o convite para reescrevermos nossa nova história. Que tal começarmos pelo lead? Ora, quem somos? O que temos feito para nós mesmo? Quando foi que fracassamos? Quando perdemos as forças? Porque não façamos diferente agora? Onde estão os cães perdidos? Como podemos mostrar que estes cães perdidos ainda latem e mordem?


* Marcelo Maropo é aspirante a jornalista"
Eu assino embaixo. Ana Paula Fontana

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